[RESENHA] A BOLSA AMARELA, DE LYGIA BOJUNGA

[RESENHA] A BOLSA AMARELA, DE LYGIA BOJUNGA

Sinopse: “A Bolsa Amarela já se tornou um ‘clássico’ da literatura infanto-juvenil. É o romance de uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades (que ela esconde numa bolsa amarela)- a vontade de crescer, a de ser garoto e a de se tornar escritora. A partir dessa revelação- por si mesma uma contestação à estrutura familiar tradicional em cujo meio criança não tem vontade?- essa menina sensível e imaginativa nos conta o seu dia-a-dia, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação fértil e povoado de amigos secretos e fantasias. Ao mesmo tempo que se sucedem episódios reais e fantásticos, uma aventura espiritual se processa, e a menina segue rumo à sua afirmação como pessoa. A Bolsa Amarela recebeu o selo de ouro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, dado anualmente ao livro considerado ‘o melhor para a criança'”

 

A bolsa amarela, livro de Lygia Bojunga, foi publicado originalmente em 1976; época em que o Brasil vivia o período da ditadura militar. Essa contextualização é importante para entendermos uma característica primordial da protagonista dessa história: sua ânsia por ser aceita e livre.

Raquel é uma menina repreendida dentro do próprio lar, com suas vontades e particularidades completamente ignoradas. Ela tem três desejos: ter nascido garoto, ser logo gente grande e ser escritora. Ser garoto e gente grande pelo mesmo motivo: liberdade. Ser escritora porque era um desejo além de qualquer explicação que ela pudesse dar. Só sabia que queria escrever.

 

“Lygia foi a primeira autora brasileira a receber o Prêmio Hans Christian Andersen (1982) e o Prêmio Astrid Lindgren Memorial Award (2004). Eles são considerados as maiores honrarias concedidas aos escritores da literatura infantojuvenil no mundo” (G1).

 

A menina nos mostra como é difícil pertencer, como é difícil ter a individualidade respeitada sendo uma criança em fase de amadurecimento. A bolsa é onde ela guarda tudo, inclusive suas vontades, ora leves, ora pesadas. Acho interessante a bolsa ser dessa cor, amarela, que atualmente simboliza o cuidado com a saúde mental.

 

“Às vezes a gente quer muito uma coisa e então acha que vai querer a vida toda. Mas aí o tempo passa. E o tempo é o tipo do sujeito que adora mudar tudo. Um dia ele muda você e pronto: você enjoa de ser pequena e vai querer crescer.” (p. 49)

 

É no refúgio da amizade que a vida de Raquel vai se tornar mais leve. Para não dar muitos detalhes sobre o enredo, vou destacar, aqui, dois dos personagens de que mais gostei:

O galo Rei, que depois passa a se chamar Afonso: personagem inventado pela própria Raquel, que escreveu a história dele até certo ponto. O galo estava destinado a ser o chefe do galinheiro, mas não gostava nada disso. Ele queria que todos tivessem voz, que cada um pudesse escolher o que fazer, galo ou galinha. Ele queria igualdade, queria liberdade! Mas, sem apoio entre os seus, foi preso, forçado a ser “aquilo que havia sido destinado a ser”. Apesar de tudo, decidido a lutar por algo importante, foge do galinheiro e vai morar na bolsa amarela, até encontrar uma ideia pela qual lutar.

O galo Terrível: Assim que esse galo nasceu, resolveram que ele seria um galo de briga implacável, e já lhe deram o nome de Terrível. Foi sistematicamente treinado para ser brigão, mas Terrível era amoroso, cultivava felicidade. Chegou um tempo em que ele não seguia o script de galo de briga, então os donos dele adotaram uma medida que resolveria o problema de uma vez por todas: costuraram o pensamento do galo com uma Linha bem forte, para deixar de fora só o que realmente importava para eles: o pensamento de brigar. E assim foi sendo; Terrível venceu  130 brigas, até encontrar um galo mais novo. Aqui também é digno de nota informar que Terrível é primo de Afonso e que a Linha também é uma personagem com seu espaço devido no livro.

 

“Resolvi que se eu queria escrever qualquer coisa eu devia escrever e pronto. Carta, romancinho, telegrama, o que me dava na cabeça. Queriam rir de mim? Paciência. Melhor rirem de mim do que carregar aquele peso dentro da bolsa amarela.” (p. 103)

 

A bolsa amarela é um livro que trata de temas sensíveis ao mesmo tempo que nos leva por aventuras incríveis. Pode ser, para muitos leitores, uma bela porta de entrada para a literatura fantástica. Além dos temas retratados por Lygia, outro ponto interessante a ser trabalhado em uma leitura compartilhada com alguém mais jovem é a questão da linguagem. O livro, como já dito, é de 1976. Sendo assim, podemos ver um pouco da forma de se expressar daquela época. Por exemplo, o eufemismo “abotoar o paletó” ao falar de morte; o termo “curtição”, que eu realmente não sei o melhor sinônimo atual, mesmo tendo nascido em 1990; “transa”, no sentido de transação ou acordo; “trambolhão”, que quer dizer também queda barulhenta, entre outros. A bolsa amarela é um livro pequeno, só 140 páginas. Mas uma literatura tão gigante. Tão nossa.

 

 

Título: A bolsa amarela

Autora: Lygia Bojunga

Ilustrações: Marie Louise Nery

Editora: Casa de Lygia Bojunga

Páginas: 140

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