[RESENHA] A PALAVRA QUE RESTA, DE STÊNIO GARDEL

[RESENHA] A PALAVRA QUE RESTA, DE STÊNIO GARDEL

Sugerimos não ler a sinopse deste livro.

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O que nos resta d’A palavra que resta.

O pequeno (no tamanho) e vigoroso romance de Stênio Gardel nos cativa pela densidade do que consegue dialogar com quem lê, ainda que com a economia verbal e mesmo de enredo. Sim, talvez muitos que se sentarem para ler o livro (e posso dizer que se sentarão uma vez só) sentirão falta de mais história. O que, de modo algum, é demérito da obra. Stênio Gardel escreveu o que tinha para dizer, embora a gente queira saber um pouco mais de Raimundo ou de Suzzanný.

A palavra que resta é estruturado em quatro partes, contendo capítulos curtos com títulos de apenas uma palavra na maior parte dos casos. Os capítulos se alternam entre as narrativas biográficas dos personagens e de suas trajetórias, em especial do protagonista, Raimundo: homem simples, analfabeto, que guarda consigo uma carta por meio século, sem saber o que está escrito nela.

Uma das características marcantes do livro é o apurado trabalho com a linguagem. Sem sombra de dúvidas, vemos no texto um minucioso trabalho de construção literária, um burilamento de tudo aquilo que o autor considerou desnecessário dizer. O resultado é um texto envolvente e lírico. A narrativa se reveza entre o convencional e o fluxo de consciência, cuja forma de escrita adotada por Stênio Gardel pode trazer um pouco de dificuldade no início para quem não está habituado ou nunca leu uma obra que se vale desse recurso. O registro de linguagem presente nas falas das personagens nos induz a situar a história no Nordeste brasileiro: primeiro, no interior, onde Raimundo encontra desde a infância as diversas dificuldades de uma vida materialmente pobre, em que o trabalho pesado o sequestra da infância e da escola, até a sua juventude maltratada pela violência física e sobretudo psicológica, por viver em uma sociedade com valores morais tradicionalistas, repressores, amargos. A trajetória de Raimundo continua na cidade grande (Capital) e nas suas andanças, carregando as chagas do passado e a carta, sempre a carta.

A palavra que resta é uma belíssima história de amor, mas também a história de um amor cruciante. Seja quais forem ou tenham sido as trajetórias afetivas dos leitores, não há como escapar da empatia que estabelecemos com a narrativa. Não há como escapar das dores da exclusão, da solidão, da rejeição, da renúncia forçada e das sombras que cobrem as várias personagens. É isso tudo que nos resta, que nos permanece, d’A palavra que resta.

Agradecemos a Companhia das Letras que nos enviou mais esse ótimo livro, por meio da parceria com este blog.

Título: A palavra que resta

Autor: Stênio Gardel

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 160

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