[RESENHA] IDENTIDADE, DE NELLA LARSEN

[RESENHA] IDENTIDADE, DE NELLA LARSEN

Sinopse: “Irene Redfield e Clare Kendry têm algo em comum: ambas são mulheres negras de pele clara que podem se passar por brancas. Essa, porém, é a única similaridade entre elas. Após perderem contato durante a adolescência,as duas se reencontram por acaso em uma cafeteria de um hotel em Chicago. Um encontro que muda para sempre a dinâmica entre as duas mulheres, suas famílias e suas comunidades.Irene parece ter tudo que poderia desejar. Casada com Brian, um médico proeminente, eles são donos de uma confortável casa no Harlem, onde criam seus dois filhos. O trabalho de organizar bailes de caridade em que celebra toda a riqueza da cultura afro-americana dá a Irene um propósito e um senso de responsabilidade. Sua única preocupação é o desejo insistente do marido em se mudar para o Brasil, um país onde, segundo ele, não há racismo.Clare Kendry, por outro lado, vive no limite. Após perder o pai aos 14 anos, saiu da vizinhança negra em que vivia para ir morar com as tias e começou a se passar por branca, mantendo sua verdadeira ancestralidade miscigenada em segredo para todos, principalmente para o homem racista com quem se casou. No entanto, após o reencontro e à medida que começa a se envolver cada vez mais na vida de Irene, Clare vê a energia da comunidade que deixou para trás, e sua vontade ardente de retornar a ela ameaça a farsa cuidadosa que é sua vida. Obra atemporal e clássico literário, Identidade oferece um vívido retrato da sociedade americana nos anos 1920 e discute não apenas a questão de raça, mas também de classe e gênero. Através de uma brilhante narrativa e de personagens complexos, Nella Larsen prova que ser leal às próprias origens não é apenas um ato de orgulho, mas também de coragem.”

 

Se olharmos para a vida de Nella Larsen, nascida Nellie Walker, veremos que seu romance Identidade (Passing, 1929) tem um quê de sua biografia. Ela, assim como as personagens centrais do livro, era uma mulher inter-racial, filha de um pai (Peter Walker) de origem afro-caribenha e mãe dinamarquesa (Pederline Marie Hansen). O sobrenome Larsen veio depois, tomado do padrasto. Nella teve uma infância marcada pelo deslocamento. Negra entre brancos, branca entre negros, algo que certamente deve ter lhe deixado fortes impressões.

Identidade tem como tema central um aspecto interessante e relevante nas delicadas questões sobre raça e racismo: pessoas negras (inter-raciais) que se posicionam no espectro da branquitude. Ocorre que na concepção norte-americana de raça, especialmente no século passado, prevalecia o conceito de One-drop rule, ou seja, uma pessoa era considerada negra a partir do momento em que tivesse mesmo apenas um ancestral negro africano. Isso já era suficiente para imperarem contra ela todas as convenções sociais discriminatórias. E aí é que, segundo a história, entravam os artifícios da simulação racial de alguns negros, cujo fenótipo os permitia transitar entre a branquitude sem levantarem suspeitas quanto às suas origens.

Como peça literária, guardadas as devidas ressalvas da análise por conta da tradução, o livro nos deixa a sensação de que poderia ser mais. Poderia aprofundar mais as personagens, as situações, já que o tema abordado é suscetível a tantos debates interessantes e importantes. Há dois grandes momentos de tensão na trama que poderiam ter sido estendidos e até mesmo desdobrados em outros. Mas nós leitores costumamos ser assim exigentes quando nos deparamos com uma situação como essa: um assunto sobre o qual gostaríamos de conversar mais e sobre o qual imaginamos que quem o começou poderia ainda ter muito mais a nos dizer. Somos livres para fazermos nossas observações. Além do mais, a sensação de falta tem seu lado bom: nos motiva a buscar mais, a ler mais, a conhecer mais sobre aquele intrigante tópico.

– As tias eram esquisitas. Apesar de todas as Bíblias, orações e discursos sobre honestidade, não queriam que ninguém soubesse que seu querido irmão seduzira, ou arruinara, como elas diziam, uma menina negra. Podiam perdoar a ruína, mas jamais a miscigenação.

 

E é quanto a isso, por exemplo, que, tomando o enredo de Identidade como um ponto de reflexão, muito mais do que tentarmos entender os motivos particulares que levam o indivíduo A ou B a assumir uma pertença racial qualquer, é preciso enxergar que há nessa atitude uma pressão social, fruto de um longo e profundo processo de racismo, que ainda perdura, trazendo consigo violências de todas as formas, inclusive a do apagamento identitário.

Bastava, ela chorou em silêncio, sofrer como mulher, como indivíduo, por conta própria, sem que sofrer também pela raça. Era uma brutalidade, e imerecida. Claro, ninguém é tão amaldiçoado quanto os filhos negros de Cam.

 

A certa altura do livro, vemos o personagem de Brian Redfield, marido de Irene, travar um embate com a esposa em relação ao seu desejo de deixar os Estados Unidos por conta do racismo, do segregacionismo e da violência perpetrada contra a população negra. As discussões envolvem até mesmo a educação dos dois filhos do casal. É curioso notar que Brian tem como desejo trocar a América do Norte pela do Sul, mais especificamente pelo Brasil. Possivelmente, as ressonâncias do mito da democracia racial brasileira já tivesse chegado até Nella Larsen, ainda que Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, obra apontada como seminal na propalação desse ideal de harmonia racial no brasil, viesse a ser publicada apenas em 1933, quatro anos após Passing.

Aquela estranha – e, para Irene, inacreditável – ideia do marido de ir para o Brasil, que, embora ele não mais mencionasse, seguia viva dentro dele: como aquilo a assustava e, sim, como a enfurecia!

 

A edição que li (HarperCollins, 2020), em e-book, ainda traz um excelente posfácio de Ryane Leão.

***

O livro rendeu um filme da Netflix, de mesmo nome no original e na tradução, protagonizado por Tessa Thompson, no papel de Irene Redfield, e co-estrelado por Ruth Negga, no papel de Clare Bellew; contando ainda com Alexander Skarsgård, como John Bellew e André Holland, na pele de Brian Redfield.

Vi o filme depois de ler o livro (não concebo fazer de forma inversa de modo algum. Já estraguei experiências literárias vendo o filme antes). Esperava que o audiovisual trouxesse aquele algo mais de que senti falta no livro, mas o filme, neste caso, pecou pela fidelidade. Apesar de ter inserido sutilmente um elemento dramático ausente no livro, perceptível apenas com os recursos visuais.

À parte isso, o filme tem as boas atuações de Tessa Thompson, Ruth Negga e André Holland; além do charme da filmagem em preto e branco, que dialoga metalinguisticamente com a obra.

 

 

Título: Identidade

Autora: Nella Larsen

Tradução: Rogerio W. Galindo

Posfácio: Ryane Leão

Editora: HarperCollins

Páginas: 160

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