[RESENHA] MEMORIAL DE MARIA MOURA, DE RACHEL DE QUEIROZ

[RESENHA] MEMORIAL DE MARIA MOURA, DE RACHEL DE QUEIROZ

Sinopse:”(…) Heroica, a trajetória de Maria Moura, neste último e melhor romance de Rachel de Queiroz, é narrada de forma simples e direta, jamais enfadonha. Muito pelo contrário: com a marca do neo-realismo e com o suspense de folhetim, o livro é emocionante do começo à última página.

Não à toa que, ‘Memorial de Maria Moura’ foi transformado em uma das minisséries de maior sucesso da Rede Globo. E sabem em quem a escritora se inspirou para construir a sua heroína? A Rainha Elizabeth 1a., que reinou de 1558 a 1603.” 

(Xico Sá, colunista da Folha. Fonte: contracapa).

 

Rachel de Queiroz é um dos nomes da literatura nacional que dispensa apresentações. Basta dizer que foi a primeira mulher a alcançar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, infelizmente para a história da instituição, apenas em 1977. Também foi a primeira escritora a receber o Prêmio Camões, em 1993, e, nesse caso, antecipando-se a ninguém menos que José Saramago, que o receberia dois anos mais tarde. Mas se você quiser saber mais sobre a autora de O Quinze, neste blog você encontrará mais aqui e aqui.

O nosso assunto aqui neste texto é outra famosa obra da autora: Memorial de Maria Moura. A edição a que nos referimos é a publicada pela editora MEDIAfashion, 2008, volume 6 da Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros. Edição de capa dura e excelente acabamento.

Logo após a folha de rosto, nos deparamos com três dedicatórias, uma das quais é dirigida a Elizabeth I (1533-1603), rainha da Inglaterra e da Irlanda. A justificativa da homenagem é a inspiração que a monarca teria trazido à autora. Parece inusitada a referência a uma personalidade tão distante no tempo e no espaço, mas veremos que a protagonista da história reúne em si características que fazem recordar aspectos da vida da filha de Henrique VIII e Ana Bolena, tanto os fatos quanto os boatos.

 

Rainha Elizabeth I da Inglaterra e Irlanda. Imagem detalhe: Geoge Gower (1600).

 

A obra é um romance de formação: narra a trajetória de Maria Moura, da juventude à vida adulta. Maria é uma jovem que, após a perda do pai, vive com sua mãe e seu padrasto numa pequena propriedade rural, até que outras perdas e episódios de violência provocarão uma mudança brusca em sua vida.

Narrada em primeira pessoa, por três personagens diferentes, a protagonista, o Beato Romano/Padre José Maria e Marialva, a história se passa em lugar incerto no sertão do nordeste do Brasil, no século XIX, provavelmente entre as décadas de 1820 e 1840, já que há no texto passagens que falam sobre a saúde do jovem Imperador (D. Pedro II) e da guerra no sul (Guerra dos Farrapos).

Na narrativa em primeira pessoa, percebe-se a alteração de tom na linguagem quando há a mudança de quem narra. Trata-se de uma estratégia que não é alcançada por todos os autores nesse tipo de escolha formal, mas que no Memorial é atingida com sucesso. 

A escolha pela primeira pessoa parece ter sido para justificar o título de memorial do livro, muito embora este seja narrado por três personagens, dois dos quais se ocupam majoritariamente de suas próprias histórias,  e não apenas por aquela que deveria contar suas memórias. Com isso, apesar de nos envolvermos na trama de todos, parece-nos que sobram os dois outros narradores. Essa sensação se dá não apenas pela retirada do traço de autobiografia da história, mas, sobretudo, por percebermos, no desenlace do romance, que não havia uma forte conexão entre os relatos. A autora criou uma cena dramática já para o final da trama de modo a justificar os relatos da narradora Marialva, no entanto, essa cena pode parecer para alguns, assim como me pareceu, despropositada, exagerada, forçada a caber onde não era necessária. A conexão do Beato Romano com Maria Moura não é relevante ao ponto de justificá-lo como um dos narradores. sua história poderia estar na trama, mais enxuta. 

Seria irrelevante tratarmos a respeito da qualidade do texto. Mas é preciso ressaltar a escrita fluida, pormenorizada e elaborada no nível de linguagem adequado à obra, ao que se pretendeu narrar e ao como narrar. Os diálogos, na maioria das vezes são bem desenvolvidos. A escolha da autora por uma linguagem que não retrata, na maior parte das ocorrências, o que seria a exata reprodução da fala sertaneja é um mérito, já que se corre o risco de se criar uma linguagem por demais artificial que não convenceria o leitor. Em alguns casos, há o uso de arcaísmos e corruptelas que fazem sentido na história, como o cubico (por cubículo) e apragata (por alpargata).

O contraponto é a manutenção da linguagem racialista. Há três senões a fazer: a obra retrata o início do século XIX, período em que vivia-se o regime escravocrata; a narração é em primeira pessoa, de modo que a linguagem deve refletir o pensamento das personagens narradoras, equivalente ao pensamento corrente à época sobre o papel da pessoa negra na sociedade; Maria Moura é contra o regime da escravidão. Com tudo isso, não deixa de ser desconfortável para nós leitores todo o rosário depreciativo e de insultos desferidos contra pessoas negras. Além disso, prevalece na obra o pensamento de inferiorização dessas pessoas por parte da fala dos próprios personagens negros ou miscigenados (Duarte e sua mãe Rufina, por exemplo). O papel de total submissão que é dado a eles parte de uma visão naturalizada do preconceito e dos papéis sociais pré-definidos, da qual os nossos escritores contemporâneos não escaparam.

O enredo contém diversos núcleos dramáticos com histórias que prendem o leitor. Os dramas desenvolvidos na narrativa nos instigam a percorrer as páginas na busca dos desenlaces. A diversidade de núcleos e a riqueza de fatos narrados parecem ter sido pensados para que o livro fosse transplantado para uma obra audiovisual, como de fato ocorreu com sua transposição para as telas na minissérie Memorial de Maria Moura, produzida e exibida pela Rede Globo no ano de 1994.

 

A atriz Glória Pires no papel de ‘Maria Moura’. Foto: Reprodução Rede Globo

 

Os vários núcleos dramáticos, se por um lado constituem substrato para um romance de grande porte, por outro, se não bem entrelaçados acabam por enfraquecer a trama. O principal conflito do início da obra, a desavença de Maria Moura com seus primos por conta da herança das terras, simplesmente se esvai na trama. Por outro lado, novas situações são criadas para gerarem conflitos que sustentem a história. No geral, não há um grande drama que nos prende do início ao fim da história, o que não é necessariamente obrigatório (há grandes livros sem ele), mas talvez sua falta seja sentida quando não há outros elementos que o substituam à altura, como quando um texto se dedica mais ao aprofundamento psicológico das personagens.

Nesse aspecto, podemos dizer que a obra não se deteve tanto. Um romance tão extenso (608 páginas) poderia ter explorado melhor a construção psicológica dos personagens. Cabe ressaltar que a narrativa em primeira pessoa só dá espaço para que isso seja feito em relação àqueles personagens que narram a história ou que com eles se relacionam de modo mais próximo. Não se espera que haja momentos específicos para que essas abordagens sejam feitas. A própria trajetória de um personagem no enredo, por si só, vai constituindo o seu caráter, e, com certeza, deseja-se que ao fim de seu percurso possamos identificar esse processo construtivo.

Rachel de Queiroz quis retratar neste romance (e aqui voltamos à homenagem a Rainha Elizabeth I) uma figura feminina forte, protagonizando um papel geralmente atribuído a um homem. Maria Moura é a senhora absoluta de um bando de foras-da-lei e para ela prevalece a lei do “ou eu ou ele”. No entanto, a trajetória que a leva de sinhazinha a líder de bandoleiros é muito rápida. Há uma mudança brusca em seu caráter. É certo que, antes disso, ele passa por duas experiências que servem de molde a essa alteração repentina. Ainda assim, esse processo foi pouco explorado no livro, fazendo com que nos pareça pouco verossímil que uma jovem menor de idade, acostumada apenas a tarefas domésticas se transforme da noite para o dia em bandoleira e estrategista de crimes, respeitada por uma gangue de homens armados e por todos aqueles que passam a conhecer seu nome e sua fama.

Maria Moura também não realiza de próprio punho grandes feitos na história. Embora seu papel seja mais o de articuladora, cabeça pensante, cria-se a expectativa de que ela deveria executar as grandes ações. A ação final do romance, que pudesse ser, talvez, executada por ela, coloca-a num papel de fragilidade sentimental, destoando o tom do caráter que se buscou construir para ela. Não que isso seja um problema em si, afinal a intenção foi mostrar um outro lado da personagem; o lado humano comum a todas as pessoas. Porém, como dito, o leitor espera do herói os feitos grandiosos.

Uma obra literária pode ter acertos e desacertos do ponto de vista estritamente técnico; pode ser preciosa para uns e para outros nem tanto, pela perspectiva daquilo que é capaz de comover a uns e a outros não; pode nos cativar pelo conjunto de suas qualidades ou apenas por um aspecto específico. A obra publicada é um produto acabado e não adianta querermos dizer que deveria ter sido assim ou daquele outro modo. Do mesmo modo que suspendemos a incredulidade para acreditar nas fantasias da literatura, devemos suspender os julgamentos de qualquer natureza no momento da leitura e guardá-los para serem discutidos depois. Não para mudarmos o que não se pode mudar, mas para entendermos (o quê? o que quisermos).   

Memorial de Maria Moura é um romance que, para tantos como para mim, pode soar falho em alguns aspectos, mas que será lido com voracidade, pois imergimos de tal forma em suas linhas que não conseguimos abandoná-lo. Se ele não reflete nossos pensamentos e nossas crenças, ainda assim é culturalmente muito valioso.

 

 

Título: Memorial de Maria Moura

Autora: Rachel de Queiroz

Editora: MEDIAfashion / Edições Folha

Páginas: 608

Compre na Amazon: Memorial de Maria Moura

 

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