[RESENHA] ORGULHO E PRECONCEITO, DE JANE AUSTEN

[RESENHA] ORGULHO E PRECONCEITO, DE JANE AUSTEN

Sinopse: “Ao contrário de sua mãe, que anima-se diante de qualquer bonitão com uma boa herança à vista, Elizabeth Bennet não se deixa levar pelas aparências. Antes de considerar qualquer um como um bom partido, para além de fortuna e propriedades, Lizzie investiga aspectos que considera muito mais importantes: reputação e caráter. Por isso, ao ser apresentada ao rico e arrogante Fitzwilliam Darcy, sua única reação é o desprezo. Conhecê-lo melhor, porém, pode abalar as perspectivas de Elizabeth.

Vítima de suas próprias imperfeições e preconceitos, Elizabeth é uma das personagens mais fascinantes da literatura. Inteligente e observadora, ela encarna uma versão alternativa do feminino de sua época: uma mulher que não se conforma às regras do jogo social, mas que as questiona a todo instante.

A nova edição da Antofágica, traduzida por Carol Chiovatto, traz ilustrações exclusivas de Jess Vieira e apresentação da escritora Bruna Vieira. Nos posfácios, Sandra Guardini, professora titular de Literatura Inglesa e Comparada (USP), oferece um panorama da vida e de obra de Jane Austen, e Jaqueline Sant’ana, doutoranda em Sociologia (UFRJ), analisa a autora sob a perspectiva da chamada “literatura de mulherzinha”. Isadora Sinay, formada em Cinema e doutora em Literatura (USP), faz uma análise das representações audiovisuais da obra da autora.

Extra: Ao escanear o QR Code da cinta com seu smartphone, você tem acesso a duas videoaulas da acadêmica Sandra Guardini para enriquecer sua leitura.”

Quando Elizabeth Bennet pergunta ao Sr. Darcy quando foi que ele percebeu estar apaixonado por ela, ele responde:

“Não consigo precisar a hora ou o local, ou o olhar, ou as palavras, que foram a base do sentimento. Faz muito tempo. Quando percebi que havia começado, já estava no meio do caminho”. (p. 413)

 

Além de ser uma das mais belas declarações de amor da literatura inglesa (e bastante honesta), Sr. Darcy explica algo que eu mesma senti na primeira vez que li “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. Talvez hoje eu saiba o lugar onde me vi profundamente arrebatada por esse romance, mas na primeira vez, certamente, eu já estava no meio quando percebi que havia começado.

Orgulho e Preconceito” foi meu começo na literatura inglesa, especialmente da literatura de escritoras como as irmãs Brontë, Elizabeth Gaskell, Katherine Mansfield, Virginia Woolf, dentre outras. Fora tudo o que eu amo nessa história, sou profundamente grata aos livros e autoras que conheci a partir de Jane Austen.

 

 

Frequentemente colocado incorretamente na prateleira dos romances de época, “Orgulho e Preconceito” foi publicado originalmente em 1813 na Inglaterra, que vivia o Período Regencial. Sendo assim, quando nós jainetes torcemos o nariz para esse erro frequente de classificação, não é em menosprezo a autoras como Julia Quinn, Loreta Chase, dentre outras, incluindo escritoras brasileiras. O problema dessa confusão é a possível quebra de expectativa que pode causar em alguns leitores. Isso porque no(s) livro(s) de Austen você não vai encontrar um romance romântico tão açucarado (e picante) quanto os romances de época. “Orgulho e Preconceito” é um clássico da literatura inglesa, escrito retratando a sociedade e a época em que a autora viveu. Os romances de época são escritos na atualidade, com inspiração em costumes de determinada época e ambientados no passado. Embora muitas autoras façam uma bela pesquisa histórica, nesses romances o foco é o casal e sua jornada romantica. E frequentemente com direito a pelo menos uma cena de sexo. Trocando em miúdos: “Orgulho e Preconceito” não é Bridgerton” (embora haja por parte de várias autoras contemporâneas uma óbvia influência e inspiração em Jane Austen. Eu, inclusive, fui fanfiqueira de J. A. neste e neste conto!)

 

Nada contra “Bridgerton”, que fique claro (inclusive, gosto bastante). Mas são estilos beeeeeeeeem diferentes: Julia Quinn é romance de época. Jane Austen, clássico da literatura inglesa. Leiam com as expectativas corretas em relação a cada estilo/categoria.

 

Voltando ao assunto…

“Orgulho e Preconceito” é aquele livro que me faz sorrir lodo nas primeiras páginas. Eu sempre releio um trecho ou outro, mas só recentemente, com a publicação da edição (incrivelmente maravilhosa) da Antofágica, decidi relê-lo inteiramente, sem pular nenhuma partezinha. Fiquei surpresa com trechos que havia esquecido ou que guardava apenas o diálogo conforme o filme de 2005, que altera algumas coisas em comparação ao livro. Vieram até algumas memórias da série da BBC (1995), que eu não revejo faz algum tempo. E vontade de assistir versões de outros anos, versões recontadas (minha favorita é Bride and Prejudice, que resenhei aqui) e até alguns filmes que fazem referência ao clássico de Austen. Vocês já entenderam que eu não queria deixar Longbourn por nada nessa vida, certo? A menos que fosse para um baile em Netherfield ou uma visitinha a Pemberley.

 

Meu filme favorito da vida, Mensagem para você (1998).
Para você que ainda não leu, e peço desculpas pelos possíveis spoilers e divagações até aqui, basta saber que esse é um romance que começa com uma senhora que, apesar de sofrer terrivelmente dos nervos, corre para contar, eufórica, a fofoca da vez ao marido: a propriedade vizinha, Netherfield, foi alugada por um jovem RICO E SOLTEIRO, portanto, certamente a procura de uma esposa. Dessa forma, essa esposa PRECISA ser qualquer uma das cinco filhas desse casal. A mais velha, a bela e doce Jane, a mocinha padrão daquela época (na vida e na literatura), seria a candidata perfeita. Elizabeth (Lizzie) Bennet (aquela lá do começo da resenha) é uma jovem tolerável, não muito bela, embora tenha lindos olhos e opiniões bem formadas sobre tudo. É ela a tal que vai desafiar o bom senso e o juízo do Sr. Darcy. Mas não o julgue: “somos todos tolos no amor”, como acrescenta o filme de Joe Wright (2005) na fala de Charlotte Lucas (amiga de Lizzie).
Ok, temos outras três irmãs. Mas, segundo o Sr. Bennet, pai delas, pelo menos duas delas são as garotas mais tontas do país! Então, vou me encaminhar para o final e deixar a interpretação para vocês. Inclusive, se você já conhece a história e quer defender as Bennets mais novas, o espaço é todo seu nos comentários!
As irmãs Bennet do filme de 2005 (sim, eu sou vidrada nesse filme!)

É bem verdade que nós, que amamos essa história, acabamos falando repetidamente em Lizzie/Darcy e vice versa, mas “Orgulho e Preconceito” é mais que apenas uma história de amor (bastante racional, mas, ainda assim, amor): esse é um romance de costumes, que retrata a vida da pequena nobreza e burguesia rural da Inglaterra do século XIX, questionando padrões sociais, de comportamento e também literários. Tudo isso sem atacar diretamente ninguém, apenas fazendo uso da mais refinada ironia, marca registrada de Jane Austen.

Sobre a edição da Antofágica

Se você não tem o livro “Orgulho e Preconceito”, ou quer presentear, ou tem um ou vários exemplar(es) e quer mais um (quem sou eu para julgar? Inclusive, sou desse time!): vale muito investir nessa edição (espera uma promoção, com fé o preço cai para o valor que estava na pré-venda ou fica mais barato ainda)! O texto é muito bem estabelecido, sem erros aparentes, gostoso de ler e com as notas explicativas que são padrão da Antofágica. As ilustrações? Sem comentários de tão lindas! Os textos de apoio e as duas vídeo aulas aprofundam muitos temas e ajudam demais na compreensão e interpretação do romance. Para os não apegados às edições físicas, uma boa notícia: os e-books da Antofágica costumam ter preço fixo baixo e a qualidade e o conteúdo são os mesmos do livro impresso. Inclusive o acesso às videoaulas.

P.S.: Ficou na dúvida sobre o porquê desse romance fazer taaaannnnto sucesso ainda hoje, principalmente entre as mulheres? Existem muitas opiniões e estudos acadêmicos que tentam destrinchar “Orgulho e Preconceito” e pelo menos tentar explicar o motivo. Meu palpite é que, ainda hoje, buscamos o que Elizabeth Bennet idealizava como o matrimônio perfeito: um parceiro inteligente, sensível (se possível, bonito), e que tenha a capacidade de nos ver em pé de igualdade. Um companheiro de fato, alguém a quem pudéssemos nos orgulhar e receber esse carinho de volta. Um amigo, já que essa coisa de casamento geralmente dura bastante tempo. Perceba que isso é um trabalho que se inicia no sim, no felizes para sempre, ou seja, quando sobem os créditos e ninguém fica sabendo que fim levou aquele casal do filme. 

Desejável também ter uma boa renda anual e uma Pemberley para chamar de lar. Mas, ok, acho que delirei um pouco aqui no final.

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